21/10/2013

#texto: Ser jornalista

Se tem algo que eu gosto é de bons textos. Daqueles que prendem atenção e mexem com seus pensamentos e sentimentos. Hoje, escolhi um que está ligado com a minha profissão. Escrito por Ciro Marcondes Filho, autor de um dos primeiros livros que comprei quando comecei a faculdade.  Um texto que todo interessado em jornalismo deveria ler...de verdade.

Ótima semana pessoas e até as próximas postagens.

(Imagem: Internet/Google)
Ser jornalista....

Um dia eu quis ser jornalista. Estar próximo dos espaços de poder, saber as coisas antes dos outros, ter oportunidade de viajar, correr o mundo, poder escrever livremente, “pôr a pena na ferida”, como dizem os franceses. Um dia quis trabalhar num jornal. Divulgar bem alto minhas opiniões, meu modo de ver o mundo, meu protesto... Eu estava banhado do sentimento oceânico. Acreditava, cartesianamente, que minha consciência era o centro do mundo e que o planeta girava porque eu assim o desejava.

Muitos quiseram ser jornalistas pelos mesmos motivos. Especialmente hoje em dia, quando televisões, jornais, emissoras de rádio, canais da internet funcionam para nos projetar, para que tenhamos a ilusão de realizar algo, de abandonar nossa existência insignificante.

Quem entra para uma faculdade de jornalismo, ainda está acometido deste mal, desta deturpação da visão e da capacidade de sentir a realidade, pois acredita que ser jornalista é um atributo que confere às pessoas capacidades de mudar o mundo. Mas não. Nos primeiros contatos com uma redação de jornal, na primeira pauta que recebe para cobrir, na primeira decepção ao ver o editor transformar sua matéria, o pobre infeliz se dá conta de que as coisas são um pouco mais complicadas. De que o jornalismo faz parte de uma instituição grande e poderosa chamada “imprensa”, que tem seus donos, suas políticas, suas preferências; de que, se ele quiser continuar por lá, deverá rezar direitinho conforme o credo, aprender os passos para não errar na dança.

Ser jornalista não é ser livre, nem independente, nem poderoso, muito menos acima do bem e do mal. Ser jornalista, na maior parte das vezes, é batalhar dia após dia, de sol a sol, estar disponível em domingos, feriados, sair da redação em plena madrugada, passar minguados horários livres no boteco da esquina, reclamando da vida.

Ser jornalista é malhar, ralar, se estressar, se decepcionar, não ser reconhecido, se frustrar, recomeçar tudo outra vez, tentar novamente e continuar. Já se disse que todos aqueles que não davam para nada iam ser jornalistas. É possível. Exatamente porque pra ter estomago para suportar tudo isso é preciso que seja alguém muito especial, um tipo humano capaz de quase tudo, de tomar chuva, de ficar encharcado para aguardar um pronunciamento do político; de conviver e tomar sopa com mendigos para poder noticiar o problema dos albergues noturnos; de se enfiar numa mina e sair totalmente sujo para relatar os problemas da profissão de mineiro.

Por isso, jornalista é um ser especial, nascido para isso e talhado para o trabalho duro. Por ideal e por gosto. Porque acredita que, embora reconhecendo todas as ilusões da profissão, mesmo assim, encontra sentido nela. E vê, além disso, uma nobreza singular em servir de intermediário entre o poder e o povo, entre as classes abastadas e a plebe rude, entre a justiça e a injustiça.

Já se falou muito que o ser jornalista corre sempre o risco de se perder, de se corromper por viver muito próximo aos poderosos. Sim, tem também esse tipo de jornalista. Como tem aqueles que são fracos, despreparados, mal sabem falar, menos ainda escrever, mas que insistem, acham que vão melhorar quando adquirirem mais experiência.

Ser jornalista é algo que o ser jornalista sempre pretendeu. Porque além das dores e das frustrações cotidianas estará um profissional que se vê diante de uma missão, como na religião; é isso que ele pode e quer fazer. Não somos nada, não podemos nada, o mundo é essa máquina acéfala e cega que nos leva sabe-se lá para onde... E o fato de termos consciência de não sermos nada nos atira, normalmente, num mar de resignação e de tristeza.

É ai que o jornalista difere dos demais. Porque ele transfere corpo e alma para seu trabalho, não quer se corromper, quer manter a integridade de sua vocação e de sua convocação para a realização de seus ideais. Um dia, se tiver competência e persistência, conquistará uma coluna própria poderá falar o que quiser, será lido e ouvido por milhares de pessoas. Mas essa vaidade nem sempre interessa. Afinal, quase todos que aí chegaram não passavam de sujeitos pretensiosos, arrogantes, que se levavam muito a sério. Ridículos.

Não, o ser jornalista, para chegar de fato a ser jornalista, no sentido estrito, terá, um dia, atingido a consciência de que seu trabalho é pequenino, como o de um varredor de rua, de um entregador de gás, de um cobrador de ônibus. E que não há trabalhos grandes, apenas trabalhos honestos. E sinceros. E repassar aquilo que se viu, ouviu é de especial delicadeza se o outro, aquele que recebeu, pôde se emocionar, se sensibilizar, se entristecer ou se animar, em suma, se a mensagem proferida teve a qualidade de ver o outro como um ser humano, tão digno de atenção e respeito como ele mesmo, que tanta porrada teve que tomar na vida para aprender esta singela lição. Que não há nada mais importante que o anonimato que o anonimato de um trabalho decente.

Granja Vianna, 8 de setembro de 2008.
Ciro Marcondes Filho

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