08/05/2018

Mari não conseguia dormir...

...reprisava na mente cena por cena, fala por fala, tudo o que havia acontecido em seu último encontro com o cara que ela acreditava ser perfeito para ela. Talvez um dia tenha sido, ela não sabia mais, porém, entendia que como tudo que um dia começa, um dia também chega ao fim. Ela nem mesmo compreendia o porquê de tudo aquilo ter ressurgido em seus pensamentos depois de tanto tempo, mas sabia que precisava desabafar  e assim o fez: puxou a primeira gaveta da escrivaninha, pegou um antigo diário e se colocou a escrever....


*

Seu olhar perdido, seu semblante assustado dizendo que não está feliz.... isso me deixou confusa.  
"Ela não é você", então você disse.  Aqueles 30 segundos de um silêncio interminável era minha mente tentando selecionar o que, daquele turbilhão de palavras que surgiam, eu falaria à pessoa que um dia fez parte dos dias mais felizes da minha vida e que permanecia ali imóvel, com a cara séria, olhar perdido, esperando uma resposta ou, talvez, esperando apenas ser escorraçado daquela casa. 

Naqueles eternos 30 segundos enfim entendi que você não sabia o porquê de ter dito aquilo. Mas eu já tinha percebido o seu medo de aceitar a decisão que tinha tomado, sabe lá quando. "Realmente, ela não tem como ser eu. Nem ao menos tentar", foi a primeira frase que consegui dizer.  Não, não foi fácil olhar para você e saber que estava prestes a por um ponto final numa história que um dia você prometeu que não acabaria.


Mas você já tinha tomado sua decisão, precisava encara-la e, talvez a contragosto, era eu quem deveria deixar claro isso. "Ela não é e nunca vai ser eu. Porque as pessoas são, pensam e agem de maneiras diferentes. Do mesmo modo que você não vai encontrar nela ou em qualquer outra mulher as minhas qualidades ou os meus defeitos, eu não vou encontrar ninguém parecido com você em meus próximos relacionamentos. Isso é natural", disse com uma falsa paz, pois por dentro eu só queria descontar todo meu ódio em algo. 


"Eu não estou feliz", assim você quase emendou. Aquilo me cortou mas fui tomada por uma onda de consciência que acreditava não ser capaz de ter naquele momento. Foi um arsenal de perguntas: afinal, o que era necessário para ser feliz ? Qual é a minha responsabilidade na sua felicidade? Por que você precisa de mim para ser feliz?  


O maior erro que alguém pode cometer quando termina um relacionamento é envolver uma terceira pessoa na esperança de organizar a bagunça sentimental que ficou. Quando fazemos isso, antes de curar certas feridas e mágoas, começamos a buscar na nova pessoa as qualidades e defeitos de quem veio antes.  

Como se alguém tivesse dado start, eu já deixava as respostas seguirem seu rumo sem ao menos passa-las por um filtro. " A felicidade não pode e nem deve depender de outra pessoa. Não jogue nas costas de outro uma responsabilidade desse tamanho. A felicidade só depende de uma única pessoa:  você. Faça aquilo que tem vontade e não o que acha certo fazer para não machucar/magoar outra pessoa. Quando você aceitou terminar comigo, creio que pensou que seria melhor para você, não é? Então...já parou para pensar que enquanto me procura para voltar, a sua nova companheira pode estar acreditando fielmente em você? fazendo planos com você? E aí, já parou para pensar se quer estar inserido nesses  planos? Se isso vai te fazer bem? Se é realmente isso o que você quer? Se não for, acha justo manter alguém do seu lado só pra satisfazer sua carência? Só para ocupar um buraco que eu deixei? Você já se perguntou isso? Você já colocou isso na balança? Pessoas não são substituíveis, elas não são peças que podem ser usadas para ocupar vagas". 


Você tentou dizer mais algo mais, mas eu só queria que aquela discussão que não iria para lugar algum acabasse de uma vez. Tentei encerrar com "você teria que mover céus e terras para me reconquistar", mesmo sabendo que aquela frase era só mais uma frase. De longe, dei de costas a você, abri o portão e te pedi para ir embora. Era para nunca mais voltar. Você deu dois passos. Eu me voltei para ver se já tinha ido. Você se virou para mim e disse "eu moverei", mas não, não moveu, como eu sabia que ocorreria.  


Não, não foi fácil viver aquilo tudo. Mas eu sabia que do mesmo modo que o aconselhei, eu precisava por em prática o que eu tinha dito a você. Também não estava feliz. A ferida provocada por toda mentira contada e planos abandonados ainda estava bem aberta e não parecia que iria cicatrizar tão cedo. Sempre falaram que eu era forte. Mas as vezes cansa ter que ser forte.  A vontade de me esconder era grande mas eu tinha que buscar a minha felicidade.  


"Por onde começar, Mari?". Parei e pensei. Quais eram meus sonhos antes de tudo isso ocorrer? Quais eram os meus desejos? O que eu mais queria fazer naquela ocasião? A noite foi sem conseguir fechar o olho, mas era hora que recuperar as rédeas da minha vida e refazer a minha história...




Eu segui minha vida e quanto a você ? Nunca mais soube, nunca mais procurei saber. Espero que tenha curado suas feridas por si. Espero que tenha se divertido a toa por ai; falado algumas besteiras com os amigos; ter viajado bastante; tomado alguns porres daqueles que no outro dia são conhecidos como "nunca mais vou beber"; espero que tenha passado o rodo no carnaval mas, se não fez, e daí? Espero que tenha se divertido de outra maneira, então. Espero que tenha encontrado o verdadeiro significado de felicidade; que tenha se permitido ser feliz independente de outra pessoa. Espero que tenha se permitido viver tudo o que tinha que viver e tenha reunido muitas histórias para contar daqui há alguns anos. 

Eu me permiti viver isso. 

*
Ao terminar de escrever, uma calma invadiu o lugar onde Mari estava. Apesar de não ter dito uma só palavra para alguém, ela reorganizou os pensamentos de um jeito que poucos entenderiam. Fechou o diário, repousou a caneta ao lado, se voltou para a cama e dormiu. Enfim, conseguiu.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Desenvolvimento por: Mariely Abreu | Todos os direitos reservados ©. voltar ao topo